Eu chorei em Cuba (5)

Desde janeiro de 1959, um fato específico mudou a vida de milhões de pessoas em Cuba: a Revolução Comunista liderada por Fidel Castro, seu irmão Raul Castro e Ernesto “Che” Guevara, entre outros.
Como em outros países de orientação marxista, o Estado é totalitário. Os líderes politicos controlam e dominam todos os aspectos da sociedade e, fora desse controle, ninguém tem autorização para se organizar. Por causa disso, a Igreja de Jesus Cristo se constitui um grande perigo ao Estado, pois ela se recusa a ser dominada pelas forças políticas e o aparelho do Estado.

Não é permitida a construção de novos templos para a reunião do povo evangélico. As igrejas organizam-se então em casas, na maioria das vezes em casa de seus pastores ou missionários, que o governo reconhece como “casa-culto”, conforme já mencionei em relatos anteriores. Ainda assim, as igrejas evangélicas em Cuba surpreendem! Reunindo-se em casas, em células para oração, estudo da Palavra e testemunhos muitas pessoas tem-se convertido ao Senhor Jesus. Aleluia!!

Visitei uma dessas células num dos bairros da cidade de Guantánamo. Em um local que muito se assemelhava a uma de nossas “favelas”, num barraco de madeira que serve de moradia a uma família, fomos encontrar o irmão Uber e sua esposa.

Uber é uma pessoa especial. Era uma tarde chuvosa e entramos rapidamente em sua moradia. Mas ele nos recebeu de braços abertos. Foi maravilhoso. Um ex-soldado do exército cubano, agora já aposentado, nos informou que havia servido durante alguns anos em Angola, e que ainda se lembrava de algumas palavras em português.

E como foi gostoso, amados, ouvir um cubano “hablando” em português, com um sorriso nos lábios, dizendo “obrigado” e não “gracias”, dizendo “quarta-feira” e não “miercoles”. E, logo em seguida, Uber pegou seu violão e começamos a cantar louvores em espanhol. A meu pedido cantamos todos juntos, brasileiros e cubanos ali naquele barraco, com o som da chuva que caia lá fora. O louvor que encheu o coração de todos nós foi “Alabaré”, que quer dizer “Eu louvarei”: Se você conhece, cante agora mesmo. Aqui vai:

Alabaré, Alabaré, Alabaré, Alabaré
Alabaré a mi Señor
Juan vió el numero de los redimidos

Y todos alabavam al Señor
Unos cantavam, otros oravam
Pero todos alabavam al Señor
Alabaré, Alabaré, Alabaré, Alabaré
Alabaré a mi Señor…


Na foto acima, você pode ver Uber ministrando na missão. Ao lado dele veja o aparelho de TV, porque a igreja se reúne no que seria a sala de seu barraco. Na foto abaixo, veja o material que foi usado para levantar a moradia e também as divisórias de papelão separando o local da reunião, a casa culto, do espaço destinado à casa da família do Uber. Veja também o rosto amado dos irmãos cubanos recebendo a ministração.


Dê Glórias, muitas Glórias ao nosso DEUS, por pessoas valorosas como esse Uber, um ex-soldado do exército cubano, agora um soldado que milita no Exército de Jesus.

Dá ou não dá vontade de ajudar?

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Eu chorei em Cuba (4)

Em um dos primeiros dias de nossa estada em Cuba, saímos juntamente com o Pr. Marciano Marcel, pastor da Primeira Igreja Batista de Guantánamo, para visitar uma cidade próxima, cerca de 12 quilômetros de Guantánamo. A cidade de Costa Rica.

É um pequeno povoado situado próximo à linha férrea que liga algumas cidades daquela região. Quando nos aproximamos percebemos a situação dramática daqueles irmãos. Por causa da trepidação causada pela passagem das composições de trem o pequeno templo da igreja batista da localidade veio completamente abaixo (foto acima).

Chegamos no início da tarde e encontramos o pastor local, Pr. Milton Cadet, ocupado em reconstruir com suas próprias mãos usando pedaços de madeira que haviam restado da construção antiga e outros materiais, o pequeno templo da igreja.

O local onde os irmãos passaram a se reunir foi para mim a primeira surpresa daquele dia. O pastor Milton, sua esposa Junaika e seus dois pequenos filhos cederam o espaço de sua já apertada residência para que a sala da frente se transformasse no templo da igreja. É o que nós aprendemos a chamar de Casa-Culto (foto abaixo).

Naquele espaço reduzido os irmãos cubanos daquela cidade se reunem para louvar a DEUS e agradecer porque agora eles tem um local para adoração. Chegam a se reunir ali perto de 100 pessoas. E o pastor Milton nos informou que o trabalho continua crescendo.

Ali mesmo naquela Casa-Culto louvamos ao Senhor e oramos agradecendo pela bênção de termos um local para adoração ao nosso DEUS. Nossas igrejas tem sofisticados equipamentos de som e projetores multimídia. Instrumentos e instrumentistas de alto nivel. Mais surpreso ainda ficamos quando soubemos que a ajuda para aquela igreja, que eles recebem dos batistas brasileiros, está em torno de 10 dólares mensais. Cerca de 20 reais…

Você, amado leitor, amada leitora, que tem uma igreja com seu templo cheio de modernos instrumentos e equipamentos, louve ao Senhor pela vida daqueles irmãos de Cuba que lutam com tantas dificuldades. Lembre-se de orar pelo Pastor Milton Cadet e sua esposa Junaika, lá da cidade de Costa Rica. Deixe seu coração aberto para oferecer sua ajuda também.

Toda Glória ao Senhor da Igreja, no Brasil e em Cuba.

Eu chorei em Cuba (3)

A cidade de Guantánamo, que está localizada junto à base americana do mesmo nome, tem uma particularidade: muitos dos seus bairros, distritos e cidades próximas têm nomes de países centro-americanos. Assim, por exemplo: San Salvador, Jamaica, Costa Rica. Os irmãos cubanos me explicaram que seria uma forma de Cuba se aproximar dos paises vizinhos.

Numa tarde fomos visitar uma grande célula da Segunda Igreja Batista de Guantánamo, localizada no bairro chamado Caribe. Fomos juntamente com o missionário Pepito, dirigente desta célula.

Nossa primeira parada foi em um conjunto habitacional, que nós aqui no Brasil chamados de Cohab. Era um prédio de 18 andares, sem elevador. Já preocupados em subir os degraus de um prédio desse tamanho, Pepito nos acalmou e disse que a célula que iríamos visitar ficava no terceiro andar…

Já dentro do apartamento, eu diria “apertamento”, pudemos gozar da presença alegre de irmãos que cedem suas moradias para encontros de louvor, evangelização e estudo da palavra. É o que o governo cubano chama de Casa-Culto. Mas, o Senhor nos queria mostrar mais…

Num dos quartos daquele apartamento, prostrado em uma cama, encontrava-se um jovem por nome Jesus Angél. Já fazia 12 anos que se encontrava naquela situação devido a uma queda de uma árvore, de onde tirava o sustento de sua família.

Ah! amados, ali nos derramamos diante do Senhor e clamamos por um milagre. Toda a família se juntou a nós e houve ali um grande mover do Espírito Santo sobre aquele quarto. Mas, sobretudo o testemunho do jovem Jesus Angel falou muito ao meu coração. Ali mesmo, prostrado em sua cama, aquele jovem serve ao Senhor. É professor da classe de Escola Dominical nos domingos pela manhã e do grupo de adolescentes que se reúnem em volta de sua cama nos sábados à noite.

Como não se emocionar diante de um quadro que, aparentemente, seria desolador. Mas, os olhos, o sorriso, a esperança estampados no rosto de Jesus Angél tem motivado a tantos jovens cubanos a seguirem em frente na corrida da vida cristâ.

Pensei nos jovens de minha igreja, de muitas igrejas espalhadas por nosso país, que têm enormes dificuldades em servir ao Senhor, especialmente nos domingos pela manhã, quando nos reunimos em Escola Bíblica.

E orei: “Oh, Senhor, levanta em minha igreja, em nossas igrejas, outros tantos Jesus Angél e que eles não tenham que ficar prostrados em uma cama para o resto de suas vidas. Desperta, Senhor, desperta a nossa juventude. Há tanto ainda por fazer e continuamos a dormir o sono da morte. Meu DEUS faz milagres, Senhor, na vida de nossa juventude. Traz um VERDADEIRO avivamento para nossos corações…”

(continua)

Eu chorei em Cuba (2)

A ilha onde fica Cuba encontra-se no mar do Caribe, bem ao sul da Flórida, nos EUA. É uma região sempre sujeita a grandes tempestades tropicais, ali chamadas de “huracanes”.

Depois de algum tempo para me recompor da emoção inicial, comecei a falar aos irmãos cubanos reunidos no culto da manhã daquele domingo, mas ainda com a voz embargada. Usei o texto do livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 27, a partir do verso 13. Por causa de uma forte tempestade é relatado ali o naufrágio do navio que levava o Apóstolo Paulo em sua viagem para a capital do Império, Roma.

Disse-lhes que todos estamos sendo arrastados com violência pelo ventos e tempestades em nossas vidas, muitas vezes sem poder resistir. Como o apóstolo Paulo e seus companheiros de viagem, vamos muitas vezes navegando por mares bravios sem entender e sem saber aonde vamos parar. Há momentos que, açoitados severamente pela tormenta, sem ver nem sol nem estrelas, quase que se dissipa toda a esperança de salvamento. E aqueles irmãos cubanos, que sobreviveram em 2008 à passagem de 3 grandes tormentas, entenderam muito bem a mensagem…

Sobretudo, disse-lhes, o Senhor tem propósitos para nossas vidas, nossas igrejas e, principalmente, para Cuba e para o Brasil. Ao atravessarmos pelo meio da tempestade o mais importante é ter profunda intimidade com o Senhor. Ele vai nos mostrar que ainda há esperança e que Ele nos concedeu todas as vidas que navegam conosco.

Aquele povo vive debaixo de um sistema de governo cruel, mas o Senhor tem tocado muitas daquelas vidas com o Vento do Espírito Santo e as igrejas, mesmo com mão de ferro sobre elas, tem crescido em esperança e em poder.

Perguntei muitas vezes como é possível um médico, ou trabalhador, ou mesmo um pastor sobreviver com um salário de 10 a 30 dólares, ou 20 a 60 reais por mês? Você leitor poderá fazer essa mesma pergunta que eu fiz a eles. Eis a resposta dos cubanos: é a maravilhosa Graça de nosso DEUS. Glorificado e exaltado seja o nome do nosso DEUS.

As famílias sobrevivem porque a imensa maioria cria, em sua casa ou seu quintal, um porquinho ou uma galinha. Mas durante a celebração dos cultos não falta quem possa ofertar, nem que sejam duas moedinhas, como aquela viuva do tempo de Jesus.

Outro momento de forte impacto em minha vida de pastor brasileiro foi quando, ao final da mensagem, convidei a igreja para que orássemos por aqueles que se encontravam em meio a um furacão, dificuldades na família, enfermidades, problemas financeiros. Não esperava ver o que eu vi. Muitos, mas muitos mesmo, se colocaram de pé e começaram a clamar, e a chorar, até com soluços buscando o DEUS que tudo pode.

Não pude orar. As palavras me faltavam, novamente… Pedi ao Pr. Marciano que orasse. Ele o fez, visivelmente emocionado, orando por sua congregação e por seu próprio país. Amados, pude então entender o quanto somos abençoados em nosso Brasil, em nossas igrejas, e o Senhor me mostrou o quanto podemos fazer pelos irmãos cubanos.

(continua)

Eu chorei em Cuba (1)

Foi num domingo pela manhã. Havia o convite do pastor da 1a. Igreja Batista da cidade de Guantánamo, Pr. Marciano Marcel, para que eu trouxesse a mensagem no culto da manhã, daquele domingo.

O templo da 1a. Igreja Batista ainda pertence aos batistas daquela cidade. A igreja acaba de completar 110 anos de existência. Em Cuba, após a Revolução, não é mais permitida a construção de templos evangélicos. Os crentes batistas, e também de outras denominações evangélicas, podem reunir-se em casas, quase sempre a casa do pastor local, que as autoridades do governo cubano chamam de “casa-culto”.

Havia chovido a noite toda, de sábado para domingo, chuva benvinda no mês de maio, já quase verão, pois era a primeira chuva do ano, que até então se apresentava bastante seco.

Minha mulher, Maria Isabel, e eu caminhamos alguns quarteirões até chegar ao templo da Igreja. Guantánamo é uma cidade a leste de Santigago de Cuba, e que fica a mais de 1.000 quilômetros da capital, Havana, e bem próxima da base naval americana.

Quando chegamos, perto do início do culto da manhã, 9 horas, havia já vários irmãos cubanos que, ajoelhados oravam silenciosamente. Localizamos o Pr. Marciano, atarefado, se preparava para o início da celebração.

Iniciado o culto, com a ministração do Louvor, percebemos grande número de irmãos que ainda chegavam, atrasados por causa da chuva, alguns a pé, outros de bicicleta, nenhum de carro. Pr. Marciano nos apresentou e contou para sua igreja a razão de haver ali um casal de brasileiros, vindos de São Paulo e recomendados pela Conveção Batista Brasileira.

Inicialmente, a Isabel fez um rápido “saludo”, lendo Efésios 5. 1-2, porque com visto de turista não estava autorizada pelas autoridades do país a ministrar ou pregar. Em seguida, subi ao púlpito. A congregação ainda estava de pé. Mas, aí, eu não consegui dizer nada…

Fiquei olhando o rosto daqueles irmãos e lágrimas vieram aos meus olhos. Àquela altura já havia mais de 400 pessoas para participarem do culto da manhã e ouvir um pastor “brasileño” trazer a mensagem. Mas as palavras não saíam…

Lembrei-me de minha juventude, no início dos anos 70, quando Cuba era a “queridinha” dos estudantes, dos intelectuais e de artistas de esquerda, que saudavam a Revolução Cubana como se fosse o céu na terra. E as palavras não vinham, porque diante de mim estava uma congregação de gente que ainda tinha esperança, aliás uma Unica Esperança, o Nosso Senhor Jesus Cristo. E essa Esperança Revolução nenhuma pode apagar…

(continua)

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